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Segurança·15 min de leitura

Quem escreve o código do crime digital? A divisão de trabalho por trás das fraudes online

Empresas de fachada, salários em bitcoin e profissionais de segurança condenados: o que investigações oficiais mostram sobre o trabalho técnico no cibercrime.

Gabriel Campos
Gabriel Campos
Engenheiro de Software
Ilustração de um anúncio de vaga de desenvolvedor com requisitos comuns, em que a linha sobre o cliente final está em branco e destacada em amarelo, com o rótulo Série Mercado Clandestino 04

A empresa parecia normal: cibersegurança, serviços de teste de invasão, site próprio e uma lista de clientes. Um administrador de sistemas entrou por esse caminho. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, ele admitiu em acordo judicial que logo percebeu que a empresa, a Combi Security, não era legítima. Ela não tinha clientes reais, e os nomes no site incluíam vítimas do próprio grupo. O negócio de verdade era o FIN7, responsável pelo roubo de dezenas de milhões de cartões. Ele ficou, tornou-se um dos gerentes do grupo e, em 2021, foi condenado a dez anos de prisão.

Essa história concentra as perguntas deste quarto texto da série O mercado clandestino do software. Quem são as pessoas que escrevem e mantêm esses sistemas? Como chegaram lá? O que mudou no momento em que aquele profissional entendeu onde estava?

Um aviso sobre o método. Este texto se baseia em investigações oficiais, relatórios técnicos e pesquisa acadêmica. Não generaliza sobre nacionalidade, formação ou perfil social, porque as fontes não sustentam um “perfil do criminoso digital”. Nas palavras do IOCTA 2025 da Europol, a variedade de métodos torna difícil criar perfis nítidos. Por isso também omito os nomes das pessoas, e não cito comunidades, canais ou formas de contato.

Um organograma que você reconheceria

O retrato interno mais detalhado que temos veio de um vazamento. Em 2022, mensagens internas do grupo Conti foram publicadas, e a Check Point Research descreveu ali uma hierarquia quase clássica, com líderes de equipe que respondiam à gerência.

Função no Conti O que fazia Equivalente no mercado legítimo
Recursos humanos Encontrava candidatos, entrevistava, mediava com gestores técnicos Recrutamento
Programadores Mantinham o malware, servidores de back-end e painéis Desenvolvimento
Testadores Verificavam se o malware era detectado QA
Ofuscadores de código Dificultavam a análise dos binários Engenharia de build
Administradores de sistemas Montavam painéis, servidores, proxies e domínios SRE/DevOps
Engenharia reversa Estudava ferramentas existentes Pesquisa e desenvolvimento
Equipe ofensiva Avançava dentro das redes das vítimas Sem equivalente legítimo fora de testes autorizados
OSINT e negociação Pesquisava vítimas e negociava resgates Vendas e atendimento

Havia salário em bitcoin, comissão para negociadores e bônus de funcionário do mês, pago com multas de outros empregados. Nos arquivos de sanções do Tesouro americano sobre o Trickbot aparecem administradores, gerentes, programadores, líderes de equipe e até responsáveis por recursos humanos e finanças. No Tycoon 2FA, a Microsoft descreve um desenvolvedor principal com parceiros para marketing, pagamentos e suporte técnico.

Esses são casos individuais, e a estrutura varia muito. O próprio IOCTA 2026 separa programas abertos a quase qualquer pessoa de grupos fechados, que trabalham juntos há anos. Mas o padrão é suficiente para desfazer uma imagem. Boa parte desse trabalho se parece com um emprego.

O trabalho entediante que mantém tudo de pé

O artigo Cybercrime is (often) boring, de pesquisadores de Cambridge e Strathclyde, é uma das melhores leituras sobre o assunto. Com entrevistas e dados de fóruns, os autores argumentam que manter serviços de hospedagem, botnets ou ataques de negação de serviço é trabalho tedioso e pouco diferente da atividade de um administrador de sistemas legítimo, muitas vezes terceirizado a pessoas mal pagas. Esse tédio, concluem, leva a esgotamento e abandono de serviços.

É um contraponto útil ao mito do gênio solitário, com uma ressalva: o estudo se apoia em três tipos de serviço e em comunidades específicas. Ele não descreve todo o ecossistema.

Como as pessoas entram

As fontes mostram caminhos diferentes, e misturá-los produz conclusões erradas.

Anúncios de emprego. A Kaspersky, empresa de segurança, analisou cerca de 200 mil anúncios de emprego em 155 fóruns da dark web entre janeiro de 2020 e junho de 2022 e encontrou desenvolvedores como o perfil mais procurado. As medianas salariais iam de US$ 1.300 a US$ 4.000 por mês. A amostra de salários foi pequena, e anúncios criminosos não são garantia de pagamento real. Vale como retrato do que se anuncia, não do que se ganha.

Recrutamento em plataformas comuns. A Check Point relata que o Conti buscava candidatos em sites de emprego e bases de currículos, além de indicações com bônus. Ou seja, parte do recrutamento acontecia fora de qualquer submundo.

Empresas de fachada. A Combi Security não foi caso único. Em 2021, a Gemini Advisory, da Recorded Future, relatou com alta confiança que o FIN7 operava outra falsa empresa de segurança, a Bastion Secure, para atrair especialistas em TI sem que soubessem do que se tratava. As tarefas passadas a uma fonte da empresa de pesquisa coincidiam com a preparação de um ataque de ransomware. A análise observa que o grupo podia pagar a esses “funcionários” muito menos do que a cúmplices informados.

Abordagem direta a quem já tem acesso. Este é o caso brasileiro mais conhecido. Em julho de 2025, a Polícia Civil de São Paulo prendeu um operador de TI da C&M Software, empresa que conecta instituições financeiras ao Pix, por suspeita de facilitar o desvio de cerca de R$ 541 milhões da BMP. Segundo o depoimento relatado pela imprensa, ele disse ter sido abordado ao sair de um bar e ter recebido R$ 15 mil para entregar credenciais e executar comandos. Não localizei informação sobre sentença, e uma reportagem registra que ele se diz inocente, então o caso deve ser tratado como investigação, não como fato provado. O padrão, porém, combina com o que o IOCTA 2025 descreve: compra de credenciais de funcionários e recrutamento de pessoas de dentro.

Fóruns e comunidades. O IOCTA 2026 descreve fóruns como porta de entrada, com tutoriais, reputação, recrutamento e triagem de membros. Do lado da prevenção, o programa Cyber Choices, da NCA britânica, trabalha com jovens para explicar a diferença entre atividades legais e ilegais e direcionar suas habilidades para caminhos legítimos.

O espectro do conhecimento

A pergunta mais delicada é o que cada pessoa sabia. Os casos mostram uma gradação, que resumo abaixo. Esta tabela é uma ferramenta de leitura, não uma classificação jurídica. O enquadramento depende da lei do país, das provas e da intenção, e não faço afirmações sobre situações hipotéticas.

Situação Caso público O que a fonte registra
Não sabia para o que trabalhava Conti A Check Point relata um desenvolvedor informado de que o back-end era de um sistema de análise de anúncios
Descobriu e continuou FIN7/Combi Security Admitiu ter percebido rapidamente que a empresa era criminosa. Foi condenado
Descobriu e recebeu incentivo para ficar Conti Segundo a Check Point, o grupo oferecia aumento a desenvolvedores que entendiam o que estavam construindo
Prestação de serviço recorrente LockBit A acusação descreve um suposto desenvolvedor pago mensalmente, que admitiu às autoridades trabalho de código e consultoria
Acesso legítimo vendido ou cedido C&M Software Suspeita, segundo a polícia, ainda sem condenação que eu tenha localizado
Execução direta ALPHV/BlackCat Profissionais que se declararam culpados de usar o ransomware contra vítimas

A passagem entre as linhas é o ponto central. No Brasil, o artigo 29 do Código Penal diz que quem concorre para o crime responde “na medida de sua culpabilidade”. O artigo 154-A, § 1º, alcança quem produz, oferece ou vende programa “com o intuito de permitir” a invasão. A palavra “intuito” indica que a intenção importa, e a prova dessa intenção é discutida caso a caso. Para uma orientação sobre uma situação concreta, o caminho é um advogado criminalista, não um artigo de blog.

Minha opinião, e aqui é só opinião: a pergunta profissional mais útil não é “isso é crime?”, e sim “o que eu estou deliberadamente evitando saber?”.

Quando o profissional é da própria segurança

O caso que mais incomoda quem trabalha na área é o do ALPHV/BlackCat. Em 2023, três profissionais da indústria de cibersegurança usaram a plataforma contra vítimas nos Estados Unidos e concordaram em repassar 20% dos resgates aos administradores, segundo o Departamento de Justiça. A acusação ressalta que eles tinham habilidades e experiência justamente em proteger sistemas contra o tipo de dano que causaram. Dois foram condenados a quatro anos de prisão em abril de 2026, e a imprensa especializada os identifica como um profissional de resposta a incidentes e um negociador de ransomware.

O caso desmonta duas ideias de uma vez. A primeira é a de que o risco está só “fora”, em algum lugar distante. A segunda é a de que formação ética e credenciais profissionais vacinam alguém. As competências de um defensor e as de um atacante são muito próximas, e a diferença está em autorização e propósito.

Quais competências legítimas podem ser desviadas

A lista é quase um currículo comum. Desenvolvimento web e de painéis, integração de APIs de pagamento e mensagens, automação, administração de servidores, design de interfaces. Na Kaspersky, designers apareceram como o terceiro perfil mais procurado, atrás de desenvolvedores e atacantes. Faz sentido: uma página falsa precisa parecer real.

Nenhuma dessas habilidades é suspeita em si. O que pode transformar um trabalho comum em colaboração é o contexto em que a entrega será usada.

Como as investigações ligaram pessoas aos papéis

Quem imagina que uma função “de bastidor” é invisível deveria ler os documentos.

  • Credenciais e repositórios. Segundo a acusação no caso LockBit, investigadores encontraram no computador do suspeito credenciais de administrador de um repositório com o código-fonte do construtor do malware.
  • Conversas de trabalho. A mesma acusação cita mensagens com o administrador do grupo sobre o construtor e o painel de controle.
  • Pagamentos. Foram cerca de US$ 10 mil mensais, mais de US$ 230 mil no total, enviados por serviços de mistura de criptomoedas para uma carteira atribuída a ele.
  • Depoimento. O suspeito teria admitido a autoridades israelenses o trabalho de código e os pagamentos.
  • Dados de servidor e dispositivos. No LabHost, foi o que ligou o criador aos crimes, segundo o Crown Prosecution Service.
  • Dados da própria plataforma. No LockBit, os registros permitiram à NCA separar afiliados por atividade.

No caso LockBit, são alegações da acusação. Ainda assim, o conjunto mostra um padrão: a rotina de trabalho produz evidência. Commits, tarefas, mensagens e pagamentos existem porque o trabalho existe.

Diagrama de um funil de avaliação de proposta em quatro perguntas: quem é o cliente, é possível verificá-lo de forma independente; o que o sistema faz e quem será afetado; existe autorização por escrito do dono do ambiente; como o dinheiro chega. Respostas claras levam a seguir com contrato. Respostas evasivas levam a parar, registrar e buscar orientação jurídica.
Quatro perguntas para avaliar uma proposta antes de aceitar. Recomendação do autor, baseada nos casos citados, sem valor de orientação jurídica.

Sinais de contexto em uma proposta

Nenhum sinal abaixo prova nada, e propostas legítimas podem ter um ou outro, principalmente em empresas pequenas. A lista é uma recomendação minha. O que conta é a combinação, e principalmente a reação quando você pergunta.

  • O cliente final não pode ser conhecido. Sigilo comercial existe, mas costuma vir com uma empresa identificável e contrato.
  • O produto copia uma marca que não pertence ao cliente. Clonar a tela de login de um banco ou órgão público para um “projeto”, sem autorização da instituição, é o sinal mais forte da lista.
  • Pedem que o sistema capture dados além do necessário, como senhas, códigos de verificação, documentos ou dados de cartão, sem explicação compatível com a função do sistema.
  • O teste de invasão não tem autorização escrita. Em um pentest real, há escopo definido e autorização de quem é dono do ambiente. Foi esse disfarce que o FIN7 usou.
  • A empresa existe só na superfície. Site bonito, sem registro verificável, sem clientes que confirmem a relação por canal independente. A Combi listava vítimas como clientes.
  • O pagamento evita rastros, com pedidos para receber só em criptomoeda, por contas de terceiros ou sem nota, quando o contrato não tem razão para isso.
  • As tarefas evoluem na direção errada. Começa como manutenção e passa a incluir contornar antivírus, remover logs ou esconder origem de tráfego.
  • Ofertas para quem tem acesso privilegiado. Pagamento por credenciais, por executar um comando ou por “só olhar” o sistema do seu empregador não tem interpretação inocente plausível.

Como avaliar um cliente antes de assinar

Um roteiro prático, que vale também para consultores e freelancers:

  1. Confirme a existência da empresa. Consulte o CNPJ ou registro equivalente, veja quem responde por ela e se a atividade declarada faz sentido.
  2. Verifique referências por canal independente. Procure o cliente citado pelo contato oficial dele, não pelo número que recebeu do contratante.
  3. Pergunte o que o sistema faz e quem será afetado. Peça para ver o fluxo completo, não só o módulo isolado.
  4. Exija contrato com objeto claro, com partes identificadas e, em segurança ofensiva, autorização escrita com escopo e período.
  5. Avalie dados e marcas. Quais dados pessoais serão tratados? Com que base? O cliente é dono das marcas usadas?
  6. Mantenha registros do que foi combinado. Uma trilha profissional protege você.
  7. Combine um critério de saída. Decida de antemão o que faria você parar.

Se você desconfiar depois de começar

O momento mais perigoso é o da descoberta, como mostram os casos. Na minha opinião, o caminho razoável é parar de executar novas tarefas, não apagar nada, guardar contratos e mensagens e procurar um advogado antes de tomar qualquer outra atitude. Não faça sua própria investigação, não confronte o contratante sozinho e não acesse sistemas além do que já era autorizado. Se você recebeu uma abordagem para vender acesso do seu trabalho, comunique à área de segurança ou jurídica da empresa.

O que fica

Os casos deste texto não mostram um único tipo de pessoa. Há quem foi enganado, quem descobriu e ficou, quem foi seduzido por um valor pequeno e quem usou conscientemente a própria experiência profissional. A engenharia de software não é neutra nesse sentido. Toda entrega tem um uso, e parte da maturidade de um profissional é fazer perguntas sobre ele.

O último texto da série trata da tecnologia que promete mudar essa divisão de trabalho: a inteligência artificial substitui quem escreve esse código ou só acelera o que já existia? Para o panorama econômico, volte ao primeiro texto.

Referências

Este artigo é um estudo baseado nas fontes abaixo. Trechos marcados como opinião refletem a minha leitura e recomendações minhas não constituem orientação jurídica. Por escolha editorial, o texto não reproduz nomes nem apelidos de pessoas investigadas ou condenadas, que constam das fontes oficiais. Acusações não equivalem a condenações. Fontes consultadas em 30 de outubro de 2026.

Tags:#Série Mercado Clandestino#Cibercrime#Carreira#Ética#Engenharia de Software
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