Quem escreve o código do crime digital? A divisão de trabalho por trás das fraudes online
Empresas de fachada, salários em bitcoin e profissionais de segurança condenados: o que investigações oficiais mostram sobre o trabalho técnico no cibercrime.

A empresa parecia normal: cibersegurança, serviços de teste de invasão, site próprio e uma lista de clientes. Um administrador de sistemas entrou por esse caminho. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, ele admitiu em acordo judicial que logo percebeu que a empresa, a Combi Security, não era legítima. Ela não tinha clientes reais, e os nomes no site incluíam vítimas do próprio grupo. O negócio de verdade era o FIN7, responsável pelo roubo de dezenas de milhões de cartões. Ele ficou, tornou-se um dos gerentes do grupo e, em 2021, foi condenado a dez anos de prisão.
Essa história concentra as perguntas deste quarto texto da série O mercado clandestino do software. Quem são as pessoas que escrevem e mantêm esses sistemas? Como chegaram lá? O que mudou no momento em que aquele profissional entendeu onde estava?
Um aviso sobre o método. Este texto se baseia em investigações oficiais, relatórios técnicos e pesquisa acadêmica. Não generaliza sobre nacionalidade, formação ou perfil social, porque as fontes não sustentam um “perfil do criminoso digital”. Nas palavras do IOCTA 2025 da Europol, a variedade de métodos torna difícil criar perfis nítidos. Por isso também omito os nomes das pessoas, e não cito comunidades, canais ou formas de contato.
Um organograma que você reconheceria
O retrato interno mais detalhado que temos veio de um vazamento. Em 2022, mensagens internas do grupo Conti foram publicadas, e a Check Point Research descreveu ali uma hierarquia quase clássica, com líderes de equipe que respondiam à gerência.
| Função no Conti | O que fazia | Equivalente no mercado legítimo |
|---|---|---|
| Recursos humanos | Encontrava candidatos, entrevistava, mediava com gestores técnicos | Recrutamento |
| Programadores | Mantinham o malware, servidores de back-end e painéis | Desenvolvimento |
| Testadores | Verificavam se o malware era detectado | QA |
| Ofuscadores de código | Dificultavam a análise dos binários | Engenharia de build |
| Administradores de sistemas | Montavam painéis, servidores, proxies e domínios | SRE/DevOps |
| Engenharia reversa | Estudava ferramentas existentes | Pesquisa e desenvolvimento |
| Equipe ofensiva | Avançava dentro das redes das vítimas | Sem equivalente legítimo fora de testes autorizados |
| OSINT e negociação | Pesquisava vítimas e negociava resgates | Vendas e atendimento |
Havia salário em bitcoin, comissão para negociadores e bônus de funcionário do mês, pago com multas de outros empregados. Nos arquivos de sanções do Tesouro americano sobre o Trickbot aparecem administradores, gerentes, programadores, líderes de equipe e até responsáveis por recursos humanos e finanças. No Tycoon 2FA, a Microsoft descreve um desenvolvedor principal com parceiros para marketing, pagamentos e suporte técnico.
Esses são casos individuais, e a estrutura varia muito. O próprio IOCTA 2026 separa programas abertos a quase qualquer pessoa de grupos fechados, que trabalham juntos há anos. Mas o padrão é suficiente para desfazer uma imagem. Boa parte desse trabalho se parece com um emprego.
O trabalho entediante que mantém tudo de pé
O artigo Cybercrime is (often) boring, de pesquisadores de Cambridge e Strathclyde, é uma das melhores leituras sobre o assunto. Com entrevistas e dados de fóruns, os autores argumentam que manter serviços de hospedagem, botnets ou ataques de negação de serviço é trabalho tedioso e pouco diferente da atividade de um administrador de sistemas legítimo, muitas vezes terceirizado a pessoas mal pagas. Esse tédio, concluem, leva a esgotamento e abandono de serviços.
É um contraponto útil ao mito do gênio solitário, com uma ressalva: o estudo se apoia em três tipos de serviço e em comunidades específicas. Ele não descreve todo o ecossistema.
Como as pessoas entram
As fontes mostram caminhos diferentes, e misturá-los produz conclusões erradas.
Anúncios de emprego. A Kaspersky, empresa de segurança, analisou cerca de 200 mil anúncios de emprego em 155 fóruns da dark web entre janeiro de 2020 e junho de 2022 e encontrou desenvolvedores como o perfil mais procurado. As medianas salariais iam de US$ 1.300 a US$ 4.000 por mês. A amostra de salários foi pequena, e anúncios criminosos não são garantia de pagamento real. Vale como retrato do que se anuncia, não do que se ganha.
Recrutamento em plataformas comuns. A Check Point relata que o Conti buscava candidatos em sites de emprego e bases de currículos, além de indicações com bônus. Ou seja, parte do recrutamento acontecia fora de qualquer submundo.
Empresas de fachada. A Combi Security não foi caso único. Em 2021, a Gemini Advisory, da Recorded Future, relatou com alta confiança que o FIN7 operava outra falsa empresa de segurança, a Bastion Secure, para atrair especialistas em TI sem que soubessem do que se tratava. As tarefas passadas a uma fonte da empresa de pesquisa coincidiam com a preparação de um ataque de ransomware. A análise observa que o grupo podia pagar a esses “funcionários” muito menos do que a cúmplices informados.
Abordagem direta a quem já tem acesso. Este é o caso brasileiro mais conhecido. Em julho de 2025, a Polícia Civil de São Paulo prendeu um operador de TI da C&M Software, empresa que conecta instituições financeiras ao Pix, por suspeita de facilitar o desvio de cerca de R$ 541 milhões da BMP. Segundo o depoimento relatado pela imprensa, ele disse ter sido abordado ao sair de um bar e ter recebido R$ 15 mil para entregar credenciais e executar comandos. Não localizei informação sobre sentença, e uma reportagem registra que ele se diz inocente, então o caso deve ser tratado como investigação, não como fato provado. O padrão, porém, combina com o que o IOCTA 2025 descreve: compra de credenciais de funcionários e recrutamento de pessoas de dentro.
Fóruns e comunidades. O IOCTA 2026 descreve fóruns como porta de entrada, com tutoriais, reputação, recrutamento e triagem de membros. Do lado da prevenção, o programa Cyber Choices, da NCA britânica, trabalha com jovens para explicar a diferença entre atividades legais e ilegais e direcionar suas habilidades para caminhos legítimos.
O espectro do conhecimento
A pergunta mais delicada é o que cada pessoa sabia. Os casos mostram uma gradação, que resumo abaixo. Esta tabela é uma ferramenta de leitura, não uma classificação jurídica. O enquadramento depende da lei do país, das provas e da intenção, e não faço afirmações sobre situações hipotéticas.
| Situação | Caso público | O que a fonte registra |
|---|---|---|
| Não sabia para o que trabalhava | Conti | A Check Point relata um desenvolvedor informado de que o back-end era de um sistema de análise de anúncios |
| Descobriu e continuou | FIN7/Combi Security | Admitiu ter percebido rapidamente que a empresa era criminosa. Foi condenado |
| Descobriu e recebeu incentivo para ficar | Conti | Segundo a Check Point, o grupo oferecia aumento a desenvolvedores que entendiam o que estavam construindo |
| Prestação de serviço recorrente | LockBit | A acusação descreve um suposto desenvolvedor pago mensalmente, que admitiu às autoridades trabalho de código e consultoria |
| Acesso legítimo vendido ou cedido | C&M Software | Suspeita, segundo a polícia, ainda sem condenação que eu tenha localizado |
| Execução direta | ALPHV/BlackCat | Profissionais que se declararam culpados de usar o ransomware contra vítimas |
A passagem entre as linhas é o ponto central. No Brasil, o artigo 29 do Código Penal diz que quem concorre para o crime responde “na medida de sua culpabilidade”. O artigo 154-A, § 1º, alcança quem produz, oferece ou vende programa “com o intuito de permitir” a invasão. A palavra “intuito” indica que a intenção importa, e a prova dessa intenção é discutida caso a caso. Para uma orientação sobre uma situação concreta, o caminho é um advogado criminalista, não um artigo de blog.
Minha opinião, e aqui é só opinião: a pergunta profissional mais útil não é “isso é crime?”, e sim “o que eu estou deliberadamente evitando saber?”.
Quando o profissional é da própria segurança
O caso que mais incomoda quem trabalha na área é o do ALPHV/BlackCat. Em 2023, três profissionais da indústria de cibersegurança usaram a plataforma contra vítimas nos Estados Unidos e concordaram em repassar 20% dos resgates aos administradores, segundo o Departamento de Justiça. A acusação ressalta que eles tinham habilidades e experiência justamente em proteger sistemas contra o tipo de dano que causaram. Dois foram condenados a quatro anos de prisão em abril de 2026, e a imprensa especializada os identifica como um profissional de resposta a incidentes e um negociador de ransomware.
O caso desmonta duas ideias de uma vez. A primeira é a de que o risco está só “fora”, em algum lugar distante. A segunda é a de que formação ética e credenciais profissionais vacinam alguém. As competências de um defensor e as de um atacante são muito próximas, e a diferença está em autorização e propósito.
Quais competências legítimas podem ser desviadas
A lista é quase um currículo comum. Desenvolvimento web e de painéis, integração de APIs de pagamento e mensagens, automação, administração de servidores, design de interfaces. Na Kaspersky, designers apareceram como o terceiro perfil mais procurado, atrás de desenvolvedores e atacantes. Faz sentido: uma página falsa precisa parecer real.
Nenhuma dessas habilidades é suspeita em si. O que pode transformar um trabalho comum em colaboração é o contexto em que a entrega será usada.
Como as investigações ligaram pessoas aos papéis
Quem imagina que uma função “de bastidor” é invisível deveria ler os documentos.
- Credenciais e repositórios. Segundo a acusação no caso LockBit, investigadores encontraram no computador do suspeito credenciais de administrador de um repositório com o código-fonte do construtor do malware.
- Conversas de trabalho. A mesma acusação cita mensagens com o administrador do grupo sobre o construtor e o painel de controle.
- Pagamentos. Foram cerca de US$ 10 mil mensais, mais de US$ 230 mil no total, enviados por serviços de mistura de criptomoedas para uma carteira atribuída a ele.
- Depoimento. O suspeito teria admitido a autoridades israelenses o trabalho de código e os pagamentos.
- Dados de servidor e dispositivos. No LabHost, foi o que ligou o criador aos crimes, segundo o Crown Prosecution Service.
- Dados da própria plataforma. No LockBit, os registros permitiram à NCA separar afiliados por atividade.
No caso LockBit, são alegações da acusação. Ainda assim, o conjunto mostra um padrão: a rotina de trabalho produz evidência. Commits, tarefas, mensagens e pagamentos existem porque o trabalho existe.
Sinais de contexto em uma proposta
Nenhum sinal abaixo prova nada, e propostas legítimas podem ter um ou outro, principalmente em empresas pequenas. A lista é uma recomendação minha. O que conta é a combinação, e principalmente a reação quando você pergunta.
- O cliente final não pode ser conhecido. Sigilo comercial existe, mas costuma vir com uma empresa identificável e contrato.
- O produto copia uma marca que não pertence ao cliente. Clonar a tela de login de um banco ou órgão público para um “projeto”, sem autorização da instituição, é o sinal mais forte da lista.
- Pedem que o sistema capture dados além do necessário, como senhas, códigos de verificação, documentos ou dados de cartão, sem explicação compatível com a função do sistema.
- O teste de invasão não tem autorização escrita. Em um pentest real, há escopo definido e autorização de quem é dono do ambiente. Foi esse disfarce que o FIN7 usou.
- A empresa existe só na superfície. Site bonito, sem registro verificável, sem clientes que confirmem a relação por canal independente. A Combi listava vítimas como clientes.
- O pagamento evita rastros, com pedidos para receber só em criptomoeda, por contas de terceiros ou sem nota, quando o contrato não tem razão para isso.
- As tarefas evoluem na direção errada. Começa como manutenção e passa a incluir contornar antivírus, remover logs ou esconder origem de tráfego.
- Ofertas para quem tem acesso privilegiado. Pagamento por credenciais, por executar um comando ou por “só olhar” o sistema do seu empregador não tem interpretação inocente plausível.
Como avaliar um cliente antes de assinar
Um roteiro prático, que vale também para consultores e freelancers:
- Confirme a existência da empresa. Consulte o CNPJ ou registro equivalente, veja quem responde por ela e se a atividade declarada faz sentido.
- Verifique referências por canal independente. Procure o cliente citado pelo contato oficial dele, não pelo número que recebeu do contratante.
- Pergunte o que o sistema faz e quem será afetado. Peça para ver o fluxo completo, não só o módulo isolado.
- Exija contrato com objeto claro, com partes identificadas e, em segurança ofensiva, autorização escrita com escopo e período.
- Avalie dados e marcas. Quais dados pessoais serão tratados? Com que base? O cliente é dono das marcas usadas?
- Mantenha registros do que foi combinado. Uma trilha profissional protege você.
- Combine um critério de saída. Decida de antemão o que faria você parar.
Se você desconfiar depois de começar
O momento mais perigoso é o da descoberta, como mostram os casos. Na minha opinião, o caminho razoável é parar de executar novas tarefas, não apagar nada, guardar contratos e mensagens e procurar um advogado antes de tomar qualquer outra atitude. Não faça sua própria investigação, não confronte o contratante sozinho e não acesse sistemas além do que já era autorizado. Se você recebeu uma abordagem para vender acesso do seu trabalho, comunique à área de segurança ou jurídica da empresa.
O que fica
Os casos deste texto não mostram um único tipo de pessoa. Há quem foi enganado, quem descobriu e ficou, quem foi seduzido por um valor pequeno e quem usou conscientemente a própria experiência profissional. A engenharia de software não é neutra nesse sentido. Toda entrega tem um uso, e parte da maturidade de um profissional é fazer perguntas sobre ele.
O último texto da série trata da tecnologia que promete mudar essa divisão de trabalho: a inteligência artificial substitui quem escreve esse código ou só acelera o que já existia? Para o panorama econômico, volte ao primeiro texto.
Referências
Este artigo é um estudo baseado nas fontes abaixo. Trechos marcados como opinião refletem a minha leitura e recomendações minhas não constituem orientação jurídica. Por escolha editorial, o texto não reproduz nomes nem apelidos de pessoas investigadas ou condenadas, que constam das fontes oficiais. Acusações não equivalem a condenações. Fontes consultadas em 30 de outubro de 2026.
- U.S. Department of Justice. Three Members of Notorious International Cybercrime Group “Fin7” In Custody for Role in Attacking Over 100 U.S. Companies. 1º de agosto de 2018.
- U.S. Attorney’s Office, Western District of Washington. High-level organizer of notorious hacking group FIN7 sentenced to ten years in prison. 2021.
- U.S. Department of Justice. Two Americans Who Attacked Multiple U.S. Victims Using ALPHV BlackCat Ransomware Sentenced to Prison. 30 de abril de 2026.
- U.S. Attorney’s Office, District of New Jersey. Dual Russian and Israeli National Extradited to the United States for His Role in the LockBit Ransomware Conspiracy. Março de 2025.
- U.S. Department of the Treasury. United States and United Kingdom Sanction Additional Members of the Russia-Based Trickbot Cybercrime Gang. 7 de setembro de 2023.
- National Crime Agency (Reino Unido). LockBit leader unmasked and sanctioned. 7 de maio de 2024.
- National Crime Agency (Reino Unido). Cyber Choices.
- Crown Prosecution Service (Reino Unido). Man who created ‘one-stop shop for phishing’ jailed. 14 de abril de 2025.
- The Record. Cyber incident responders who carried out ransomware attacks given 4-year sentences. 2026.
- Europol. IOCTA 2026. Abril de 2026.
- Europol. Steal, deal and repeat. IOCTA 2025. Junho de 2025. PDF.
- Check Point Research. Leaks of Conti Ransomware Group Paint Picture of a Surprisingly Normal Tech Start-Up… Sort Of. 10 de março de 2022.
- Recorded Future (Gemini Advisory). FIN7 Recruits Talent for Push into Ransomware. Outubro de 2021.
- Microsoft. Defending the gates: How a global coalition disrupted Tycoon 2FA. 4 de março de 2026.
- Kaspersky. Developers, attackers and designers topped the list of the most demanded IT professionals on the darknet. Janeiro de 2023.
- Collier, B.; Clayton, R.; Hutchings, A.; Thomas, D. R. Cybercrime is (often) boring: maintaining the infrastructure of cybercrime economies. WEIS, 2020.
- CNN Brasil. Ataque hacker desviou R$ 541 milhões “em massa”, diz polícia. Julho de 2025.
- SBT News. Ataque hacker a bancos: funcionário recebeu R$ 15 mil para entregar senha e executar comandos. Julho de 2025.
- Xataka Brasil. Ex-funcionário da C&M Software, preso por ataque hacker de R$ 1 bilhão, afirma ser inocente. 2025.
- Presidência da República. Decreto-Lei nº 2.848/1940 (Código Penal), texto compilado, artigos 29 e 154-A.
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