Por dentro de um sistema fraudulento: como um golpe digital se transforma em uma operação de software
A anatomia do LabHost, plataforma de phishing por assinatura derrubada em 2024, reconstruída só com o que a Justiça britânica, a Europol e pesquisadores documentaram.

Em abril de 2024, cerca de 800 usuários de uma plataforma online receberam uma mensagem inesperada. Ela não vinha do suporte, e sim da polícia. Segundo a empresa de inteligência Intel 471, o recado dizia que as autoridades vinham coletando os dados deles o tempo todo.
A plataforma era o LabHost. Ela se apresentava como uma “loja completa para phishing”, criada “por spammers, para spammers”. Por uma mensalidade, o cliente recebia páginas falsas de bancos, órgãos públicos e empresas, hospedagem para colocá-las no ar e um painel para acompanhar as vítimas em tempo real. Segundo a promotoria britânica, milhares de criminosos usaram o serviço para fraudar ao menos um milhão de vítimas em 91 países.
Neste segundo texto da série O mercado clandestino do software, uso o LabHost para mostrar como um golpe vira uma operação de software, com componentes, assinaturas, suporte e painel administrativo. Escolhi o caso porque ele reúne o que poucos reúnem: condenação judicial, comunicado oficial de uma operação internacional e análises independentes. Reconstruo apenas os elementos que essas fontes sustentam. Não há aqui código, telas ou instruções que permitam reproduzir a plataforma.
A linha do tempo
- Agosto de 2021: segundo o Crown Prosecution Service (CPS), começa o período em que o réu britânico foi central na criação, operação e administração do LabHost, que vai até outubro de 2023. A Intel 471 situa os primeiros anúncios por volta de setembro de 2021.
- Setembro de 2023: a Europol começa a apoiar o caso, conduzido pela Polícia Metropolitana de Londres.
- Outubro de 2023: uma interrupção longa levanta suspeitas de que o serviço teria sumido com o dinheiro dos clientes. Segundo o BleepingComputer, ele volta plenamente em 6 de dezembro. A reportagem diz que não está claro se o episódio teve relação com a investigação.
- Fevereiro de 2024: a empresa de segurança Fortra alerta que o LabHost vinha ganhando popularidade e superando concorrentes estabelecidos.
- 14 a 17 de abril de 2024: buscas em 70 endereços resultam em 37 prisões, quatro delas no Reino Unido, de pessoas ligadas à administração do site, incluindo o desenvolvedor original. Participaram autoridades de 19 países, segundo a Europol.
- 18 de setembro de 2024: o criador se declara culpado de fabricar ou fornecer artigos para uso em fraude, de incentivar ou auxiliar a prática de crime e de transferir bens de origem criminosa.
- 14 de abril de 2025: ele é condenado a oito anos e meio de prisão.
O que as fontes permitem reconstruir
A tabela lista os componentes do LabHost descritos nas fontes. Onde a informação vem de pesquisadores privados, e não de autoridades, isso está indicado.
| Componente | Função | Fonte |
|---|---|---|
| Catálogo de páginas falsas | Mais de 170 sites falsos prontos, imitando instituições financeiras, serviços postais e operadoras, entre outros | Europol |
| Hospedagem incluída | Infraestrutura para colocar as páginas no ar; ao menos 40 mil domínios ligados à plataforma | Europol |
| Visão geral de campanhas | Acompanhamento dos golpes de cada assinante | Europol |
| Interação em tempo real | Ferramenta chamada LabRat, que permitia monitorar e controlar ataques em andamento, desenhada para capturar credenciais e códigos de dois fatores | Europol |
| Envio de mensagens | Módulo de campanhas por SMS | Pesquisadores (PhishLabs, citados pela Intel 471) |
| Planos de assinatura | De US$ 179 a US$ 300 por mês, com mais páginas nos planos maiores; média de US$ 249, segundo a Europol | Europol e Intel 471 |
| Suporte técnico | Orientação aos assinantes por um serviço de mensagens criptografado | CPS |
| Coleta de dados | Números de cartão, PINs e senhas | Polícia Metropolitana, citada pela imprensa |
Igualmente importante é o que não sabemos. As fontes públicas que consultei não descrevem a arquitetura interna, as linguagens usadas, como os dados eram armazenados ou como o painel se comunicava com as páginas. Qualquer diagrama que mostre esses detalhes seria invenção. Por isso, o esquema abaixo representa só o fluxo que as fontes sustentam, em nível conceitual.
O ponto crítico: o código que vale por poucos segundos
O componente que a Europol considerou o mais destrutivo foi o LabRat. Ele explica por que o phishing moderno vai além de “roubar a senha”.
Muitas empresas protegem o login com um segundo fator: um código enviado por SMS ou gerado em um aplicativo. A lógica é que, mesmo com a senha roubada, o criminoso não teria o código. O problema aparece quando o golpe acontece em tempo real. A vítima, acreditando estar no site verdadeiro, digita a senha e, em seguida, o código que acabou de receber. Se alguém do outro lado acompanha a sessão, esse código pode ser usado enquanto ainda é válido. Pesquisadores da Trend Micro, citados pela Intel 471, descreveram a ferramenta como do tipo adversary-in-the-middle (AiTM), capaz de capturar tokens de sessão.
O LabHost saiu do ar, mas a técnica não. O Microsoft Digital Defense Report 2026 atribui 44,6% das técnicas de phishing que a empresa identificou ao AiTM, contra 33,6% do phishing por URL padrão e 12,9% dos anexos tradicionais. É o retrato da telemetria de um fornecedor, não uma estatística mundial, mas a direção combina com a história de outra plataforma, o Tycoon 2FA, derrubada em março de 2026 e descrita pela Europol como um kit por assinatura para interceptar sessões de autenticação ao vivo.
O código de uso único protege contra senhas vazadas em massa. Contra alguém que convence a vítima a entregá-lo no momento certo, protege muito menos.
Métodos resistentes a phishing mudam essa equação. Em autenticação baseada em chaves criptográficas, como FIDO2/WebAuthn, usada por chaves de segurança e passkeys, a credencial fica vinculada ao domínio do site legítimo. O navegador não a oferece a um domínio diferente, por mais parecido que ele seja. Não há código para a vítima digitar e, portanto, nada para ser repassado. A publicação SP 800-63B do NIST é direta: senhas, códigos de uso único de tabela e autenticação fora de banda, como um código por SMS, não são resistentes a phishing. A norma exige ao menos uma opção resistente a phishing no nível AAL2 e o requisito completo no AAL3. A agência americana CISA recomenda esse tipo de MFA em seu guia sobre implementação de MFA resistente a phishing.
Uma ressalva: autenticação forte protege o login, não tudo o que vem depois. Uma sessão já autenticada pode ser roubada por malware no dispositivo, como fazem os infostealers. E uma fraude em que a vítima é convencida a fazer ela mesma a transferência passa ao largo do login. Para esses casos, a defesa está na detecção de sessões anômalas e na validação da operação, discutidas mais abaixo.
Nem toda fraude é phishing
O LabHost é um caso de engenharia social industrializada. Mas fraudes digitais têm naturezas diferentes, e cada uma pede defesas diferentes. Esta classificação é minha, a partir das categorias descritas no IOCTA 2025 da Europol:
| Categoria | Como funciona | Exemplo documentado | Defesa principal |
|---|---|---|---|
| Engenharia social | A vítima é induzida a entregar dados ou a agir | LabHost; ligações falsas de suporte técnico descritas no IOCTA 2025 | Autenticação resistente a phishing, validação de operações |
| Abuso de contas | Uso de credenciais ou sessões roubadas para se passar pelo titular | Genesis Market, que vendia cookies e “impressões digitais” de navegador | Detecção de sessão anômala, reautenticação, revogação de sessões |
| Exploração de vulnerabilidades | Uso de falhas em sistemas expostos ou injeção de código em lojas online | Corretores de acesso explorando VPNs e firewalls; skimmers em sites, segundo o IOCTA 2025 | Gestão de vulnerabilidades, atualização, monitoramento de integridade |
| Uso indevido de sistemas legítimos | Ferramentas e credenciais legítimas usadas para fins ilegítimos | Vítimas induzidas a instalar ferramentas legítimas de acesso remoto; credenciais usadas para alterar o BNMP | Menor privilégio, dupla aprovação, auditoria |
| Ameaça interna | Funcionário recrutado ou perfil falso contratado | Recrutamento de funcionários e candidaturas com identidades falsas, descritos no IOCTA 2025 | Verificação na contratação, segregação de funções |
Na prática, os golpes combinam categorias. O IOCTA 2025 observa que os criminosos costumam usar técnicas diferentes em etapas diferentes do mesmo processo. Um phishing captura a credencial (engenharia social), que é usada para entrar na conta (abuso de contas), que serve para movimentar dinheiro.
O que acontece com a vítima
A promotoria britânica estima perdas globais de ao menos £ 100 milhões associadas ao LabHost, das quais mais de £ 32 milhões no Reino Unido. Segundo a Polícia Metropolitana de Londres, citada pela Malwarebytes, cerca de 70 mil pessoas no Reino Unido caíram em páginas do serviço. No mundo, a plataforma teria reunido 480 mil números de cartão, 64 mil PINs e mais de um milhão de senhas.
O dano não termina no primeiro uso. O IOCTA 2025 registra que dados podem ser vendidos e comprados várias vezes por criminosos diferentes, ou revendidos depois de usados, o que pode resultar em vários atacantes mirando a mesma vítima. O IOCTA 2026 chama isso de ciclo vicioso de revitimização. Uma senha capturada hoje pode reaparecer meses depois em outro golpe, em outro serviço em que a vítima reutilizou a mesma senha.
Como empresas podem detectar e prevenir
As medidas abaixo são recomendações minhas, organizadas pelos pontos do fluxo em que atuam. Nenhuma, isoladamente, resolve.
Autenticação
- Oferecer passkeys ou chaves de segurança aos clientes e exigi-las de funcionários com acesso privilegiado. Das medidas desta lista, é a que torna a página falsa inútil no momento do login.
- Não tratar SMS como fator forte em operações de alto risco. Ele continua útil contra ataques em massa, mas não contra o phishing em tempo real.
Sessão e autorização
- Reautenticar antes de ações sensíveis: cadastrar novo beneficiário, trocar e-mail ou telefone, aumentar limites, emitir cartão virtual.
- Detectar sessões anômalas: um login bem-sucedido seguido de troca de dispositivo, de rede ou de padrão de uso merece atrito adicional. “Impressões digitais” de navegador podem ser roubadas, como mostrou o Genesis Market, então não devem ser o único sinal.
Validação de operações
- Confirmar a operação, não só o usuário. A confirmação deve mostrar o que está sendo autorizado (valor, destinatário) por um canal que o golpista não controla.
- Limites e períodos de espera para destinatários novos. Fraudes de transferência dependem de velocidade.
- No Brasil, conhecer o MED. O Mecanismo Especial de Devolução do Pix permite bloquear temporariamente recursos na conta de destino. O pedido pode ser feito em até 80 dias, mas o próprio Banco Central avisa que o mecanismo não garante a devolução, que depende da análise do caso e de haver saldo.
Monitoramento e proteção de dados
- Monitorar domínios parecidos com a sua marca e ter um processo rápido de denúncia. O CERT.br orienta que, quando o domínio é malicioso, a notificação vá para a rede que hospeda a página e para o registrador, e não para o contato do próprio domínio, que provavelmente é controlado pelo fraudador.
- Minimizar os dados expostos. O IOCTA 2025 mostra que dados pessoais servem de matéria-prima para golpes mais convincentes. Cada dado que a empresa não coleta, ou não exibe em telas e mensagens, é um dado a menos para alimentar um roteiro de fraude.
Resposta a incidentes
- Revogar sessões e credenciais de clientes afetados e avisá-los por um canal oficial.
- Preservar evidências (URLs, cabeçalhos de mensagens, horários com fuso) antes de pedir a derrubada. O próximo texto da série detalha essa ordem.
- Comunicar o incidente quando houver dados pessoais envolvidos: o artigo 48 da LGPD exige comunicar à ANPD e aos titulares incidentes que possam acarretar risco ou dano relevante.
Como a investigação chegou à autoria
O LabHost também mostra como plataformas centralizadas deixam rastros. Segundo o Crown Prosecution Service, o criador foi preso no aeroporto de Manchester em 14 de abril de 2024, e seus dispositivos foram apreendidos. Dados de servidores obtidos com parceiros internacionais e outras evidências digitais o ligaram aos crimes. Ele recebeu US$ 230 mil em criptomoedas, valor que passou por contas de criptoativos e contas bancárias pessoais e foi convertido em dinheiro vivo por meio de um terceiro.
Os assinantes também ficaram expostos. A Europol informou que os dados reunidos passariam a apoiar operações contra os usuários da plataforma. Na minha leitura, essa é a ironia central do crime como serviço: o painel que dava ao golpista controle sobre a vítima era o mesmo banco de dados que daria à polícia controle sobre o golpista.
O que o caso ensina
Para quem desenvolve, o LabHost é desconfortavelmente familiar. Catálogo de modelos, planos, painel, hospedagem gerenciada, suporte por chat. Na minha avaliação, nada disso exige sofisticação técnica rara. O que o tornava perigoso era a combinação de três coisas: páginas convincentes, interação em tempo real e um modelo de negócio que colocava essas capacidades nas mãos de pessoas sem conhecimento técnico.
Para quem defende, a lição é que a fraude atravessa o sistema inteiro, da mensagem à transferência. Proteger só o login, só o e-mail ou só a transação deixa caminhos abertos. A defesa que funciona é a que interrompe o fluxo em mais de um ponto.
No próximo texto da série, saio do painel e vou para a infraestrutura: onde esses sistemas são hospedados e por que derrubar um domínio não resolve tudo. O texto anterior trata do mercado de serviços como um todo.
Referências
Este artigo é um estudo baseado nas fontes abaixo. Trechos marcados como opinião refletem a minha leitura. Por escolha editorial, o texto não reproduz nomes nem apelidos de pessoas investigadas ou condenadas, que constam das fontes oficiais. Informações atribuídas a empresas privadas estão identificadas como tal no texto. Fontes consultadas em 30 de outubro de 2026.
- Crown Prosecution Service (Reino Unido). Man who created ‘one-stop shop for phishing’ jailed. 14 de abril de 2025.
- Europol. International investigation disrupts phishing-as-a-service platform LabHost. Abril de 2024.
- Europol. Global phishing-as-a-service platform taken down in coordinated public-private action (Tycoon 2FA). Março de 2026.
- Europol. Steal, deal and repeat: How cybercriminals trade and exploit your data. IOCTA 2025. Publications Office of the European Union, junho de 2025. Página da publicação.
- Europol. The evolving threat landscape: how encryption, proxies and AI are expanding cybercrime. IOCTA 2026. Abril de 2026.
- Microsoft. Microsoft Digital Defense Report 2026. Outubro de 2026. Período coberto: julho de 2025 a junho de 2026.
- Intel 471. LabHost: A defunct but potent phishing kit. 16 de abril de 2025.
- BleepingComputer (Bill Toulas). LabHost phishing service with 40,000 domains disrupted, 37 arrested. 18 de abril de 2024.
- Malwarebytes. Law enforcement reels in phishing-as-a-service whopper. Abril de 2024.
- U.S. Department of Justice. Criminal Marketplace Disrupted in International Cyber Operation (Genesis Market). 5 de abril de 2023.
- NIST. SP 800-63B-4: Digital Identity Guidelines, Authentication and Authenticator Management.
- CISA. Implementing Phishing-Resistant MFA (fact sheet). Outubro de 2022.
- Banco Central do Brasil. Segurança no Pix.
- CERT.br. Notificações de incidentes de segurança.
- Presidência da República. Lei nº 13.709/2018 (LGPD).
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