GC
Voltar para o blog
Segurança·14 min de leitura

Por dentro de um sistema fraudulento: como um golpe digital se transforma em uma operação de software

A anatomia do LabHost, plataforma de phishing por assinatura derrubada em 2024, reconstruída só com o que a Justiça britânica, a Europol e pesquisadores documentaram.

Gabriel Campos
Gabriel Campos
Engenheiro de Software
Ilustração de um painel administrativo esquemático com uma lista de sessões e um campo de código de verificação destacado em amarelo, com o rótulo Série Mercado Clandestino 02

Em abril de 2024, cerca de 800 usuários de uma plataforma online receberam uma mensagem inesperada. Ela não vinha do suporte, e sim da polícia. Segundo a empresa de inteligência Intel 471, o recado dizia que as autoridades vinham coletando os dados deles o tempo todo.

A plataforma era o LabHost. Ela se apresentava como uma “loja completa para phishing”, criada “por spammers, para spammers”. Por uma mensalidade, o cliente recebia páginas falsas de bancos, órgãos públicos e empresas, hospedagem para colocá-las no ar e um painel para acompanhar as vítimas em tempo real. Segundo a promotoria britânica, milhares de criminosos usaram o serviço para fraudar ao menos um milhão de vítimas em 91 países.

Neste segundo texto da série O mercado clandestino do software, uso o LabHost para mostrar como um golpe vira uma operação de software, com componentes, assinaturas, suporte e painel administrativo. Escolhi o caso porque ele reúne o que poucos reúnem: condenação judicial, comunicado oficial de uma operação internacional e análises independentes. Reconstruo apenas os elementos que essas fontes sustentam. Não há aqui código, telas ou instruções que permitam reproduzir a plataforma.

A linha do tempo

  • Agosto de 2021: segundo o Crown Prosecution Service (CPS), começa o período em que o réu britânico foi central na criação, operação e administração do LabHost, que vai até outubro de 2023. A Intel 471 situa os primeiros anúncios por volta de setembro de 2021.
  • Setembro de 2023: a Europol começa a apoiar o caso, conduzido pela Polícia Metropolitana de Londres.
  • Outubro de 2023: uma interrupção longa levanta suspeitas de que o serviço teria sumido com o dinheiro dos clientes. Segundo o BleepingComputer, ele volta plenamente em 6 de dezembro. A reportagem diz que não está claro se o episódio teve relação com a investigação.
  • Fevereiro de 2024: a empresa de segurança Fortra alerta que o LabHost vinha ganhando popularidade e superando concorrentes estabelecidos.
  • 14 a 17 de abril de 2024: buscas em 70 endereços resultam em 37 prisões, quatro delas no Reino Unido, de pessoas ligadas à administração do site, incluindo o desenvolvedor original. Participaram autoridades de 19 países, segundo a Europol.
  • 18 de setembro de 2024: o criador se declara culpado de fabricar ou fornecer artigos para uso em fraude, de incentivar ou auxiliar a prática de crime e de transferir bens de origem criminosa.
  • 14 de abril de 2025: ele é condenado a oito anos e meio de prisão.

O que as fontes permitem reconstruir

A tabela lista os componentes do LabHost descritos nas fontes. Onde a informação vem de pesquisadores privados, e não de autoridades, isso está indicado.

Componente Função Fonte
Catálogo de páginas falsas Mais de 170 sites falsos prontos, imitando instituições financeiras, serviços postais e operadoras, entre outros Europol
Hospedagem incluída Infraestrutura para colocar as páginas no ar; ao menos 40 mil domínios ligados à plataforma Europol
Visão geral de campanhas Acompanhamento dos golpes de cada assinante Europol
Interação em tempo real Ferramenta chamada LabRat, que permitia monitorar e controlar ataques em andamento, desenhada para capturar credenciais e códigos de dois fatores Europol
Envio de mensagens Módulo de campanhas por SMS Pesquisadores (PhishLabs, citados pela Intel 471)
Planos de assinatura De US$ 179 a US$ 300 por mês, com mais páginas nos planos maiores; média de US$ 249, segundo a Europol Europol e Intel 471
Suporte técnico Orientação aos assinantes por um serviço de mensagens criptografado CPS
Coleta de dados Números de cartão, PINs e senhas Polícia Metropolitana, citada pela imprensa

Igualmente importante é o que não sabemos. As fontes públicas que consultei não descrevem a arquitetura interna, as linguagens usadas, como os dados eram armazenados ou como o painel se comunicava com as páginas. Qualquer diagrama que mostre esses detalhes seria invenção. Por isso, o esquema abaixo representa só o fluxo que as fontes sustentam, em nível conceitual.

Fluxo conceitual em quatro etapas: mensagem enviada à vítima, página falsa hospedada pela plataforma, painel em que o operador acompanha a vítima em tempo real, e uso dos dados na conta verdadeira. Abaixo, a plataforma fornece catálogo, hospedagem, painel e suporte ao assinante. Quatro pontos de defesa estão marcados: denúncia e derrubada de domínios, autenticação resistente a phishing, detecção de sessão anômala e validação da operação antes de liberar dinheiro.
O fluxo documentado do LabHost e os pontos em que uma empresa pode interrompê-lo. Diagrama conceitual do autor, sem detalhes de implementação.

O ponto crítico: o código que vale por poucos segundos

O componente que a Europol considerou o mais destrutivo foi o LabRat. Ele explica por que o phishing moderno vai além de “roubar a senha”.

Muitas empresas protegem o login com um segundo fator: um código enviado por SMS ou gerado em um aplicativo. A lógica é que, mesmo com a senha roubada, o criminoso não teria o código. O problema aparece quando o golpe acontece em tempo real. A vítima, acreditando estar no site verdadeiro, digita a senha e, em seguida, o código que acabou de receber. Se alguém do outro lado acompanha a sessão, esse código pode ser usado enquanto ainda é válido. Pesquisadores da Trend Micro, citados pela Intel 471, descreveram a ferramenta como do tipo adversary-in-the-middle (AiTM), capaz de capturar tokens de sessão.

O LabHost saiu do ar, mas a técnica não. O Microsoft Digital Defense Report 2026 atribui 44,6% das técnicas de phishing que a empresa identificou ao AiTM, contra 33,6% do phishing por URL padrão e 12,9% dos anexos tradicionais. É o retrato da telemetria de um fornecedor, não uma estatística mundial, mas a direção combina com a história de outra plataforma, o Tycoon 2FA, derrubada em março de 2026 e descrita pela Europol como um kit por assinatura para interceptar sessões de autenticação ao vivo.

O código de uso único protege contra senhas vazadas em massa. Contra alguém que convence a vítima a entregá-lo no momento certo, protege muito menos.

Métodos resistentes a phishing mudam essa equação. Em autenticação baseada em chaves criptográficas, como FIDO2/WebAuthn, usada por chaves de segurança e passkeys, a credencial fica vinculada ao domínio do site legítimo. O navegador não a oferece a um domínio diferente, por mais parecido que ele seja. Não há código para a vítima digitar e, portanto, nada para ser repassado. A publicação SP 800-63B do NIST é direta: senhas, códigos de uso único de tabela e autenticação fora de banda, como um código por SMS, não são resistentes a phishing. A norma exige ao menos uma opção resistente a phishing no nível AAL2 e o requisito completo no AAL3. A agência americana CISA recomenda esse tipo de MFA em seu guia sobre implementação de MFA resistente a phishing.

Uma ressalva: autenticação forte protege o login, não tudo o que vem depois. Uma sessão já autenticada pode ser roubada por malware no dispositivo, como fazem os infostealers. E uma fraude em que a vítima é convencida a fazer ela mesma a transferência passa ao largo do login. Para esses casos, a defesa está na detecção de sessões anômalas e na validação da operação, discutidas mais abaixo.

Nem toda fraude é phishing

O LabHost é um caso de engenharia social industrializada. Mas fraudes digitais têm naturezas diferentes, e cada uma pede defesas diferentes. Esta classificação é minha, a partir das categorias descritas no IOCTA 2025 da Europol:

Categoria Como funciona Exemplo documentado Defesa principal
Engenharia social A vítima é induzida a entregar dados ou a agir LabHost; ligações falsas de suporte técnico descritas no IOCTA 2025 Autenticação resistente a phishing, validação de operações
Abuso de contas Uso de credenciais ou sessões roubadas para se passar pelo titular Genesis Market, que vendia cookies e “impressões digitais” de navegador Detecção de sessão anômala, reautenticação, revogação de sessões
Exploração de vulnerabilidades Uso de falhas em sistemas expostos ou injeção de código em lojas online Corretores de acesso explorando VPNs e firewalls; skimmers em sites, segundo o IOCTA 2025 Gestão de vulnerabilidades, atualização, monitoramento de integridade
Uso indevido de sistemas legítimos Ferramentas e credenciais legítimas usadas para fins ilegítimos Vítimas induzidas a instalar ferramentas legítimas de acesso remoto; credenciais usadas para alterar o BNMP Menor privilégio, dupla aprovação, auditoria
Ameaça interna Funcionário recrutado ou perfil falso contratado Recrutamento de funcionários e candidaturas com identidades falsas, descritos no IOCTA 2025 Verificação na contratação, segregação de funções

Na prática, os golpes combinam categorias. O IOCTA 2025 observa que os criminosos costumam usar técnicas diferentes em etapas diferentes do mesmo processo. Um phishing captura a credencial (engenharia social), que é usada para entrar na conta (abuso de contas), que serve para movimentar dinheiro.

O que acontece com a vítima

A promotoria britânica estima perdas globais de ao menos £ 100 milhões associadas ao LabHost, das quais mais de £ 32 milhões no Reino Unido. Segundo a Polícia Metropolitana de Londres, citada pela Malwarebytes, cerca de 70 mil pessoas no Reino Unido caíram em páginas do serviço. No mundo, a plataforma teria reunido 480 mil números de cartão, 64 mil PINs e mais de um milhão de senhas.

O dano não termina no primeiro uso. O IOCTA 2025 registra que dados podem ser vendidos e comprados várias vezes por criminosos diferentes, ou revendidos depois de usados, o que pode resultar em vários atacantes mirando a mesma vítima. O IOCTA 2026 chama isso de ciclo vicioso de revitimização. Uma senha capturada hoje pode reaparecer meses depois em outro golpe, em outro serviço em que a vítima reutilizou a mesma senha.

Como empresas podem detectar e prevenir

As medidas abaixo são recomendações minhas, organizadas pelos pontos do fluxo em que atuam. Nenhuma, isoladamente, resolve.

Autenticação

  • Oferecer passkeys ou chaves de segurança aos clientes e exigi-las de funcionários com acesso privilegiado. Das medidas desta lista, é a que torna a página falsa inútil no momento do login.
  • Não tratar SMS como fator forte em operações de alto risco. Ele continua útil contra ataques em massa, mas não contra o phishing em tempo real.

Sessão e autorização

  • Reautenticar antes de ações sensíveis: cadastrar novo beneficiário, trocar e-mail ou telefone, aumentar limites, emitir cartão virtual.
  • Detectar sessões anômalas: um login bem-sucedido seguido de troca de dispositivo, de rede ou de padrão de uso merece atrito adicional. “Impressões digitais” de navegador podem ser roubadas, como mostrou o Genesis Market, então não devem ser o único sinal.

Validação de operações

  • Confirmar a operação, não só o usuário. A confirmação deve mostrar o que está sendo autorizado (valor, destinatário) por um canal que o golpista não controla.
  • Limites e períodos de espera para destinatários novos. Fraudes de transferência dependem de velocidade.
  • No Brasil, conhecer o MED. O Mecanismo Especial de Devolução do Pix permite bloquear temporariamente recursos na conta de destino. O pedido pode ser feito em até 80 dias, mas o próprio Banco Central avisa que o mecanismo não garante a devolução, que depende da análise do caso e de haver saldo.

Monitoramento e proteção de dados

  • Monitorar domínios parecidos com a sua marca e ter um processo rápido de denúncia. O CERT.br orienta que, quando o domínio é malicioso, a notificação vá para a rede que hospeda a página e para o registrador, e não para o contato do próprio domínio, que provavelmente é controlado pelo fraudador.
  • Minimizar os dados expostos. O IOCTA 2025 mostra que dados pessoais servem de matéria-prima para golpes mais convincentes. Cada dado que a empresa não coleta, ou não exibe em telas e mensagens, é um dado a menos para alimentar um roteiro de fraude.

Resposta a incidentes

  • Revogar sessões e credenciais de clientes afetados e avisá-los por um canal oficial.
  • Preservar evidências (URLs, cabeçalhos de mensagens, horários com fuso) antes de pedir a derrubada. O próximo texto da série detalha essa ordem.
  • Comunicar o incidente quando houver dados pessoais envolvidos: o artigo 48 da LGPD exige comunicar à ANPD e aos titulares incidentes que possam acarretar risco ou dano relevante.

Como a investigação chegou à autoria

O LabHost também mostra como plataformas centralizadas deixam rastros. Segundo o Crown Prosecution Service, o criador foi preso no aeroporto de Manchester em 14 de abril de 2024, e seus dispositivos foram apreendidos. Dados de servidores obtidos com parceiros internacionais e outras evidências digitais o ligaram aos crimes. Ele recebeu US$ 230 mil em criptomoedas, valor que passou por contas de criptoativos e contas bancárias pessoais e foi convertido em dinheiro vivo por meio de um terceiro.

Os assinantes também ficaram expostos. A Europol informou que os dados reunidos passariam a apoiar operações contra os usuários da plataforma. Na minha leitura, essa é a ironia central do crime como serviço: o painel que dava ao golpista controle sobre a vítima era o mesmo banco de dados que daria à polícia controle sobre o golpista.

O que o caso ensina

Para quem desenvolve, o LabHost é desconfortavelmente familiar. Catálogo de modelos, planos, painel, hospedagem gerenciada, suporte por chat. Na minha avaliação, nada disso exige sofisticação técnica rara. O que o tornava perigoso era a combinação de três coisas: páginas convincentes, interação em tempo real e um modelo de negócio que colocava essas capacidades nas mãos de pessoas sem conhecimento técnico.

Para quem defende, a lição é que a fraude atravessa o sistema inteiro, da mensagem à transferência. Proteger só o login, só o e-mail ou só a transação deixa caminhos abertos. A defesa que funciona é a que interrompe o fluxo em mais de um ponto.

No próximo texto da série, saio do painel e vou para a infraestrutura: onde esses sistemas são hospedados e por que derrubar um domínio não resolve tudo. O texto anterior trata do mercado de serviços como um todo.

Referências

Este artigo é um estudo baseado nas fontes abaixo. Trechos marcados como opinião refletem a minha leitura. Por escolha editorial, o texto não reproduz nomes nem apelidos de pessoas investigadas ou condenadas, que constam das fontes oficiais. Informações atribuídas a empresas privadas estão identificadas como tal no texto. Fontes consultadas em 30 de outubro de 2026.

Tags:#Série Mercado Clandestino#Cibercrime#Phishing#Autenticação#Prevenção a Fraudes
CONSULTORIA & SEGURANÇA

Precisa de apoio técnico no seu projeto ou sistema?

Atuo no desenvolvimento de sistemas web sob medida, integrações de APIs e diagnóstico de performance. Atendimento direto com o desenvolvedor, sem intermediários.

CONTINUE LENDO