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Segurança·20 min de leitura

O mercado negro do software: quem programa os sistemas que movimentam o crime digital?

Assinaturas, licenças, comissões e venda de acesso: como parte do cibercrime passou a funcionar como economia de serviços, segundo Europol, NCA e Justiça dos EUA.

Gabriel Campos
Gabriel Campos
Engenheiro de Software
Ilustração de uma tabela de preços em três colunas, como a de um software comercial, com os valores mensais documentados do LabHost e a coluna do meio destacada em amarelo, com o rótulo Série Mercado Clandestino 01

Em fevereiro de 2024, a National Crime Agency (NCA), do Reino Unido, tomou o ambiente de administração do LockBit, um dos grupos de ransomware mais ativos do mundo. Três meses depois, a agência divulgou o que encontrou nos sistemas: 194 afiliados identificados até fevereiro de 2024 e mais de 7.000 ataques montados com a plataforma entre junho de 2022 e fevereiro de 2024. Havia também um dado curioso: até 114 desses afiliados pagaram para entrar no programa e, segundo a NCA, aparentemente nunca receberam um resgate.

Clientes que pagam a entrada, usam a plataforma e não tiram retorno dela. Descrito assim, parece o relato de uma startup que vendeu mais licenças do que entregou valor. A comparação incomoda, mas é o ponto de partida desta série: uma parte relevante do crime digital documentado hoje funciona como um mercado, com fornecedores, produtos, planos, suporte e intermediários.

Este é o primeiro texto da série O mercado clandestino do software. Aqui analiso modelos de negócio que autoridades e pesquisadores documentaram e os papéis que aparecem nas investigações. O objetivo é entender estruturas e padrões, não ensinar a participar delas. Por isso, o texto não traz apelidos, contatos nem formas de acesso a mercados clandestinos. Os nomes de pessoas investigadas estão nas fontes oficiais e aqui não acrescentam nada à análise.

Do “hacker” ao fornecedor: o que é crime como serviço

A Europol resume o modelo em uma frase: no cibercrime como serviço, criminosos alugam ou vendem ferramentas, conhecimento ou serviços a outros criminosos para que estes cometam os ataques. O modelo se consolidou no ransomware e se espalhou para o phishing e outras áreas.

A avaliação de ameaças da Europol publicada em abril de 2026, o IOCTA 2026, vai mais longe e diz que, nessa economia, atores de ameaças híbridas, que podem ou não estar ligados a Estados, são “simplesmente mais um cliente”. A edição anterior, o IOCTA 2025, lista o que se compra e se vende: registros de infostealers (malware que rouba credenciais e cookies), dados de cartões, acesso inicial a redes corporativas, credenciais de serviços web, assinaturas de kits de phishing, serviços de falsificação de chamadas e modelos de linguagem maliciosos, além de soluções “antidetecção”.

Duas ressalvas, feitas pelos próprios autores, são importantes. O IOCTA 2025 avisa que, como muitas transações acontecem em canais fechados, o relatório cobre apenas a parte do ecossistema visível ao Centro Europeu de Cibercrime (EC3). E o IOCTA 2026 se define como uma visão centrada na aplicação da lei, baseada principalmente em informação qualitativa. São retratos do que a polícia europeia enxerga, não um censo do crime digital no mundo.

As siglas, sem mistificação

Termo O que descreve Exemplo documentado
Cybercrime-as-a-Service (CaaS) O guarda-chuva: serviços vendidos a outros criminosos Termo usado pela Europol
Ransomware-as-a-Service (RaaS) Plataforma de ransomware operada por um núcleo e usada por afiliados LockBit, ALPHV/BlackCat
Phishing-as-a-Service (PhaaS) Assinatura de páginas falsas, hospedagem e painel LabHost, Tycoon 2FA
Malware-as-a-Service (MaaS) Malware vendido como licença, com suporte e atualizações Lumma
Fraude como serviço Rótulo descritivo para os insumos de golpes, como números, chips e servidores descartáveis Rede de SIM boxes descrita no IOCTA 2026; RedVDS
Corretor de acesso inicial (IAB) Quem vende a entrada em uma rede já comprometida Genesis Market

As fronteiras entre esses rótulos são fluidas. Eles descrevem formatos de mercado, não categorias jurídicas, e um mesmo fornecedor pode caber em mais de um.

Um catálogo documentado

Os modelos abaixo vêm de casos com investigação oficial ou relatório técnico. Não são todos os modelos existentes e não significam que todo grupo criminoso opera assim. São exemplos verificáveis de cada formato.

Modelo O que se vende Caso O que as fontes registram
Licença em níveis Malware pronto, com planos Lumma Planos de US$ 250 a US$ 20.000, este com acesso ao código-fonte, segundo a Microsoft
Assinatura mensal Plataforma de phishing com hospedagem e painel LabHost Média de US$ 249 por mês, cerca de 10.000 usuários e ao menos 40.000 domínios, segundo a Europol
Infraestrutura descartável Máquinas virtuais baratas por assinatura RedVDS A partir de US$ 24 por mês, segundo a Microsoft
Programa de afiliados com comissão Ransomware e infraestrutura para quem executa os ataques ALPHV/BlackCat Os afiliados de um caso pagavam 20% de cada resgate aos administradores, segundo o Departamento de Justiça dos EUA
Venda de acesso e identidade Credenciais, cookies e “impressões digitais” de navegador Genesis Market Dados de mais de 1,5 milhão de computadores e mais de 80 milhões de credenciais, segundo o Departamento de Justiça
Hospedagem dedicada Servidores que ignoram denúncias Zservers Sancionada por EUA, Austrália e Reino Unido por fornecer IPs a afiliados do LockBit, segundo o Tesouro dos EUA
Rede de proxies Acesso a IPs de computadores infectados 911 S5 Segundo a acusação, cerca de US$ 99 milhões em vendas entre 2018 e 2022
Vitrine e reputação Fóruns que anunciam ferramentas e dados Cracked e Nulled Mais de 4 e 5 milhões de usuários, respectivamente, até a derrubada em janeiro de 2025, segundo o IOCTA 2025

Três observações sobre essa tabela.

Os planos imitam o software comercial. No Lumma, a Microsoft descreve que, conforme o plano, o comprador podia criar versões próprias do malware, acrescentar ferramentas de distribuição e acompanhar os dados roubados em um portal. No RedVDS, o painel do cliente exibia programa de fidelidade e bônus por indicação, segundo a mesma empresa.

Comissão é modelo de negócio, e as porcentagens variam. O IOCTA 2026 registra que o Qilin oferece aos afiliados 80% a 85% de cada pagamento e que o DragonForce anunciou um serviço de análise de dados roubados e preparo de material de extorsão, com taxas que podem passar de 20% do resgate. Na outra ponta, o IOCTA 2025 diz que acessos valiosos e vulnerabilidades desconhecidas costumam ser negociados de forma privada, possivelmente em troca de uma porcentagem dos ganhos do comprador.

Preço depende do alvo. Segundo o IOCTA 2025, o valor de um acesso varia com o setor, o porte, a receita e a localização da organização comprometida, além do tipo e da persistência do acesso. O relatório cita a CrowdStrike, empresa de segurança, segundo a qual o preço anunciado de acessos subiu quase 50% em 2024. É um número de fornecedor, baseado no que a empresa monitora, e deve ser lido assim.

Diagrama em três camadas. Na base, fornecedores: desenvolvedores, operadores de infraestrutura e fornecedores de dados. No meio, intermediários: corretores de acesso, mercados e fóruns. No topo, executores: afiliados, golpistas assinantes e compradores de identidades. Entre as camadas, o pagamento desce, na forma de assinatura, licença ou comissão, e sobem acesso, dados, ferramentas e servidores. O diagrama observa que fornecedores também vendem direto aos executores.
Como as camadas do mercado se relacionam, segundo os casos citados no texto. Simplificação: uma mesma pessoa pode ocupar mais de uma camada. Diagrama do autor.

Nem todo grupo criminoso é uma plataforma

Aqui mora o erro mais comum de quem escreve sobre o assunto, inclusive o de quem usa a palavra “mercado” com entusiasmo demais. O IOCTA 2026 divide os grupos de ransomware em três formatos:

  • Programas públicos de afiliados, em que quase qualquer pessoa pode se cadastrar e usar as capacidades da plataforma.
  • Grupos semifechados, que recrutam de forma seletiva e buscam afiliados qualificados e de confiança.
  • Grupos fechados, formados por pessoas que provavelmente trabalham juntas há anos, desenvolvem o próprio malware, hospedam boa parte da infraestrutura e executam os ataques. Dependem menos do crime como serviço e, segundo a Europol, são mais difíceis de identificar, porque seus rastros aparecem menos em dados apreendidos ou vazados.

Esse último ponto é um alerta sobre viés de sobrevivência. Sabemos muito sobre as plataformas abertas justamente porque elas têm muitos clientes, vazam e são apreendidas. Isso não prova que elas sejam a forma dominante do crime digital. Prova que são a forma mais visível.

Quatro papéis que costumam ser confundidos

Na cobertura de um ataque, tudo vira “o hacker”. As investigações mostram funções diferentes, com responsabilidades e evidências diferentes.

Papel O que faz Exemplo documentado
Executor Escolhe a vítima e realiza o ataque ou o golpe Afiliados que montavam e negociavam ataques com o LockBit; compradores de identidades no Genesis Market
Desenvolvedor Cria e mantém a ferramenta O criador do LabHost, que segundo o Crown Prosecution Service foi central na criação e administração da plataforma e dava suporte aos assinantes
Intermediário Vende o que viabiliza o ataque: acesso, dados, visibilidade O Genesis Market, que o Departamento de Justiça chamou de um dos mais prolíficos corretores de acesso inicial do mundo
Operador de infraestrutura Mantém servidores, IPs, domínios e redes Os administradores da Zservers; o administrador do 911 S5, que segundo a acusação controlava cerca de 150 servidores dedicados

Há ainda o fornecedor de dados, que o IOCTA 2025 descreve como quem usa infostealers e campanhas de phishing para coletar informações e revendê-las, em lotes brutos ou já processados. O relatório considera provável que existam criminosos especializados só em extrair e analisar esse material.

Na prática, os papéis se sobrepõem. O criador do LabHost também dava suporte. Segundo a NCA, o administrador do LockBit era também seu desenvolvedor. E o Departamento de Justiça acusa o administrador do 911 S5 de, com outras pessoas, criar o malware, operar a infraestrutura e vender o acesso. O valor da distinção está em lembrar que “quem atacou” e “quem tornou o ataque possível” são perguntas diferentes.

Como o desenvolvimento é terceirizado

As fontes públicas mostram pelo menos quatro arranjos diferentes, que nem sempre têm a ver com um contrato de terceirização no sentido comum.

  • Salário. Nos chats vazados do Conti, analisados pela Check Point Research, programadores e alguns gerentes recebiam salário em bitcoin, enquanto negociadores ganhavam de 0,5% a 1% do resgate.
  • Pagamento recorrente a um especialista. A acusação contra um suposto desenvolvedor do LockBit descreve transferências de cerca de US$ 10 mil por mês em criptomoeda, que somaram mais de US$ 230 mil.
  • Venda do código. O plano mais caro do Lumma incluía o acesso ao código-fonte, o que transfere a manutenção ao comprador.
  • Reaproveitamento de código vazado. O IOCTA 2026 registra que operadores de ransomware mudam de atividade com facilidade graças a bases de código vazadas, ferramentas de montagem de código com IA e plataformas que permitem gerar versões próprias. O DragonForce, por exemplo, oferece variantes montadas a partir do código vazado do Conti e do LockBit.

O último arranjo ajuda a explicar por que derrubar uma marca não encerra um problema: o código sobrevive à organização que o escreveu. Quem trabalha com software reconhece a dinâmica de um fork.

Que trabalho técnico aparece nas investigações

Os vazamentos do Conti são o melhor retrato público disponível, com a ressalva de que descrevem uma organização em um momento específico. A Check Point identificou recursos humanos, programadores, testadores, especialistas em ofuscar código, administradores de sistemas, engenharia reversa, equipe ofensiva e pessoal de pesquisa e negociação. Nos arquivos do Tesouro americano sobre o grupo Trickbot, aparecem administradores, gerentes, desenvolvedores, programadores e testadores.

Grande parte desse trabalho é pouco glamorosa. Pesquisadores de Cambridge e Strathclyde mostraram, com entrevistas e dados de fóruns, que operar infraestrutura de cibercrime é trabalho tedioso, pouco diferente do de um administrador de sistemas legítimo, e que esse tédio leva a esgotamento e abandono de serviços. O quarto texto desta série trata dessas pessoas em detalhe.

Por que ferramentas prontas reduzem a barreira técnica

A especialização faz no crime o que faz em qualquer mercado de software: quem compra não precisa entender tudo o que está por baixo. O cliente de uma plataforma de e-commerce não precisa saber administrar servidores. O assinante de uma plataforma de phishing também não.

A Europol é explícita: plataformas como o LabHost tornam o cibercrime mais acessível para criminosos sem habilidade técnica e ampliam significativamente o número de pessoas capazes de atacar. O LabHost oferecia um cardápio de mais de 170 sites falsos e serviços que podiam ser colocados no ar “com poucos cliques”.

Mas barreira menor não significa sucesso garantido. Três sinais nas próprias fontes:

  • Muitos clientes parecem não lucrar. Os afiliados do LockBit que, segundo a NCA, aparentemente nunca receberam resgate são o exemplo mais claro. Dos 194, 75 nem chegaram a negociar com vítimas.
  • O mercado é cheio de propaganda enganosa. O IOCTA 2025 registra que corretores de dados frequentemente exageram o valor do que vendem e que as ofertas podem ser falsas ou vir de vazamentos antigos.
  • A confiança é o gargalo. A participação em fóruns depende de reputação construída ao longo do tempo. O IOCTA 2026 acrescenta que golpes de saída, em que administradores somem com o dinheiro dos usuários, são endêmicos nos mercados menores e que os mercados vivem cada vez menos.

Na minha leitura, isso ajuda a entender a semelhança com o software legítimo. Planos, marca, suporte e reputação existem para resolver a desconfiança entre compradores e vendedores que não podem recorrer a um contrato.

Como o modelo de serviços muda escala e responsabilidade

O efeito mais visível é a escala. Uma plataforma de phishing esteve ligada a ao menos 40 mil domínios. Outra, o Tycoon 2FA, gerava dezenas de milhões de e-mails por mês e facilitou acesso indevido a quase 100 mil organizações, segundo a Europol. Cada desenvolvedor multiplica o alcance de dezenas ou milhares de executores.

O segundo efeito é a diluição da responsabilidade percebida. Quem escreve o código pode dizer a si mesmo que “só vende a ferramenta”. Quem executa pode dizer que “só usou o que comprou”. Quem aluga o servidor pode dizer que “só fornece infraestrutura”. Cada participante vê uma fatia da operação, e essa fragmentação facilita não olhar para o todo. A Justiça, como veremos, nem sempre aceita esse raciocínio.

O terceiro efeito é menos comentado e, para quem trabalha com engenharia, o mais interessante: plataformas centralizam evidências. Um serviço com milhares de clientes precisa de cadastro, cobrança, logs, painel e suporte. Quando a polícia chega à infraestrutura, chega a tudo isso de uma vez.

  • No LabHost, a Europol informou que uma grande quantidade de dados passou às mãos das autoridades para apoiar operações contra os usuários da plataforma.
  • No Genesis Market, o Departamento de Justiça disse que o mercado “prometia falsamente uma nova era de anonimato e impunidade” e acabou se tornando uma forma de identificar e prender criminosos.
  • No LockBit, a NCA informou ter obtido o código-fonte da plataforma e grande quantidade de informações sobre quem trabalhou com o grupo e usou seus serviços.

A arquitetura que permite escalar o crime é a mesma que cria pontos únicos de falha para ele. Os criminosos também perceberam isso. A Europol nota uma mudança para plataformas menores, grupos fechados e infraestrutura própria.

O que diferencia um papel do outro nas investigações

As fontes públicas mostram tipos de evidência que aparecem repetidamente quando autoridades atribuem um papel a alguém. A lista não é exaustiva, e cada caso depende das suas provas.

  • Dados do servidor. No LabHost, segundo o Crown Prosecution Service, dados de servidores obtidos com parceiros internacionais ligaram o criador da plataforma aos crimes.
  • Fluxo de pagamentos. O mesmo réu recebeu US$ 230 mil em criptomoedas, que passou por contas pessoais e converteu em dinheiro vivo por meio de um terceiro. No 911 S5, a acusação descreve a compra de imóveis com os recursos.
  • Registros da plataforma. O ambiente de administração do LockBit permitiu à NCA separar afiliados que montaram ataques, que negociaram com vítimas e que receberam pagamentos.
  • Conversas de trabalho. A acusação contra o suposto desenvolvedor do LockBit cita mensagens com o administrador sobre tarefas no construtor do malware e no painel de controle.
  • Contratos de infraestrutura. O Tesouro americano relata, no caso Zservers, a locação de IPs a afiliados do LockBit e um episódio revelador: depois da reclamação de uma empresa, os administradores desligaram o IP denunciado e atribuíram um novo ao mesmo cliente, informando ao denunciante que o endereço tinha sido cortado. É esse tipo de conduta, e não o simples fato de hospedar algo, que separa infraestrutura dedicada ao crime de um provedor abusado.

Um cuidado necessário: acusação não é condenação. Os próprios comunicados do Departamento de Justiça lembram que uma acusação é apenas uma alegação e que os réus são presumidos inocentes até prova em contrário. Ao longo da série, sinalizo quando um fato vem de condenação, de acusação ou de relatório técnico.

As consequências de participar conscientemente

Legais. No Brasil, o artigo 154-A do Código Penal, que trata da invasão de dispositivo informático, prevê no § 1º a mesma pena para quem “produz, oferece, distribui, vende ou difunde dispositivo ou programa de computador com o intuito de permitir a prática” da invasão. A fraude eletrônica, no artigo 171, § 2º-A, tem pena de 4 a 8 anos de reclusão. O artigo 29 estabelece que quem concorre para um crime responde por ele “na medida de sua culpabilidade”. A Lei 12.850/2013 define organização criminosa, entre outros requisitos, pela associação de quatro ou mais pessoas com divisão de tarefas, “ainda que informalmente”. Como cada situação depende dos fatos, da intenção e da prova, não faço aqui afirmações jurídicas sobre casos hipotéticos. No Reino Unido, o criador do LabHost foi condenado a oito anos e meio de prisão por, entre outros crimes, fabricar ou fornecer artigos para uso em fraude.

Financeiras e de mobilidade. As sanções do Tesouro americano bloqueiam bens e proíbem transações com pessoas e empresas designadas. No caso LockBit, a NCA informou que o líder identificado passou a estar sujeito a congelamentos de bens e proibições de viagem impostos por Reino Unido, Estados Unidos e Austrália.

Profissionais e éticas. A habilidade que constrói um painel administrativo, uma plataforma por assinatura ou uma infraestrutura resiliente é a mesma que o mercado legítimo paga para ter. Na minha opinião, o argumento do “só escrevi o código” perde força diante do que esses sistemas fizeram: o LabHost, sozinho, esteve ligado a ao menos um milhão de vítimas, segundo a promotoria britânica.

O que isso significa para quem constrói software legítimo

Para empresas e desenvolvedores, a lição prática é ajustar o modelo de ameaça. O atacante pode não ter criado a ferramenta que usa: ele pode ter comprado capacidade pronta. Isso muda algumas prioridades.

  • Credenciais e sessões são mercadoria. Se infostealers vendem cookies e “impressões digitais” de navegador, como no Genesis Market, um login válido não prova que é o usuário. Vale reautenticar em operações sensíveis, encurtar sessões de alto risco e desconfiar de sessões que mudam de contexto.
  • Sua marca pode estar no catálogo de alguém. Plataformas como o LabHost vendiam páginas falsas de bancos, serviços públicos e empresas de entrega. Monitorar domínios parecidos com o seu e ter um canal de denúncia rápido faz diferença.
  • Autenticação resistente a phishing deixou de ser luxo. O Microsoft Digital Defense Report 2026 atribui 44,6% das técnicas de phishing identificadas pela empresa ao adversary-in-the-middle, que captura o código e a sessão em tempo real. É um dado do ambiente que a Microsoft observa, não do mundo inteiro, mas mostra por que o segundo texto da série dá tanta atenção a esse ponto.

Para continuar a série

Este é o primeiro de cinco textos. Os próximos:

Referências

Este artigo é um estudo baseado nas fontes abaixo. Trechos marcados como opinião refletem a minha leitura. Por escolha editorial, o texto não reproduz nomes nem apelidos de pessoas investigadas, que constam das fontes oficiais. Relatórios de empresas de segurança refletem o que cada empresa observa em seus próprios ambientes e não são estatísticas representativas de todo o cibercrime. Fontes consultadas em 30 de outubro de 2026.

Tags:#Série Mercado Clandestino#Cibercrime#Crime como Serviço#Segurança da Informação#Engenharia de Software
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