Eleição de 2026: o que muda (e o que mudaria) para a tecnologia
Lula foi reeleito em 25 de outubro de 2026. Comparo, com os mesmos critérios, o que muda para o mercado de tecnologia e o que mudaria com a vitória do campo bolsonarista.

Quatro dias depois do segundo turno, a pergunta que interessa a quem trabalha com tecnologia não é sobre ideologia. É prática: vai ficar mais caro contratar? Os juros vão cair? Vale abrir empresa agora? O cliente vai voltar a investir em software?
Este artigo tenta responder com método. Em vez de opinar sobre quem deveria ter ganhado, comparo dois cenários com os mesmos critérios: o que tende a acontecer no novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e o que poderia ter acontecido com a vitória do candidato do campo bolsonarista. Separo o tempo todo três coisas que costumam ser misturadas: o que já está decidido e vale em qualquer cenário, o que são propostas de campanha e o que são consequências possíveis, que dependem de muitas variáveis.
Primeiro, os fatos: qual eleição e qual resultado
A eleição em análise é a de 2026:
- Primeiro turno, 4 de outubro de 2026: Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula (PT), segundo a totalização do TSE divulgada pela imprensa.
- Segundo turno, 25 de outubro de 2026: Lula foi reeleito com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio Bolsonaro, segundo o anúncio do presidente do TSE.
- Posse: pela Emenda Constitucional nº 111/2021, o presidente eleito em 2026 toma posse em 5 de janeiro de 2027, e não mais em 1º de janeiro. Deputados e senadores tomam posse em 1º de fevereiro de 2027.
Por que o cenário A não é “Jair Bolsonaro presidente”
A pauta original deste artigo era comparar uma vitória de Jair Bolsonaro com o governo Lula. Ao checar os fatos, essa premissa não se sustenta para 2026. Jair Bolsonaro foi declarado inelegível pelo TSE em 2023, por oito anos contados a partir da eleição de 2022, e foi condenado pelo STF em 2025 a 27 anos de prisão no processo da trama golpista. Ele não poderia ser candidato em 2026.
O candidato do seu campo político foi o filho, o senador Flávio Bolsonaro, que chegou ao segundo turno. Por isso, o cenário A deste artigo é uma vitória de Flávio Bolsonaro, analisada a partir do plano de governo que ele registrou no TSE. Um contrafactual sobre Jair Bolsonaro vencendo em 2022 seria outra pergunta, sobre 2023 a 2026, e ficaria fora do que o leitor pode usar hoje para decidir alguma coisa.
O que já está decidido, qualquer que fosse o vencedor
Boa parte do que afeta o mercado de tecnologia nos próximos anos já é lei ou já está em andamento. Isso é o que menos depende da eleição, e o que mais costuma ser esquecido no debate:
- Juros: o Banco Central tem autonomia formal desde 2021, e a Selic é decidida pelo Copom. Em 16 de setembro de 2026, o comitê cortou a taxa de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte seguido. Juros nesse nível encarecem crédito e investimento em qualquer cenário.
- Mercado de trabalho: o desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, com recorde de 103,5 milhões de ocupados, segundo a PNAD Contínua do IBGE.
- Imposto de renda: a Lei nº 15.270/2025 isentou do IR, desde janeiro de 2026, quem ganha até R$ 5 mil por mês, criou um imposto mínimo para rendas anuais acima de R$ 600 mil e passou a reter 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês pagos por uma mesma empresa a uma mesma pessoa física.
- Reforma tributária do consumo: a transição para o IVA dual (CBS e IBS), aprovada pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentada em 2025, segue o cronograma legal, com a CBS entrando em vigor em 2027.
- Folha de pagamento: a desoneração, que inclui empresas de TI, está sendo retirada aos poucos pela Lei nº 14.973/2024. Em 2026, a contribuição sobre a receita bruta caiu para 60% da alíquota original e a contribuição sobre a folha subiu para metade; em 2028 a folha volta à alíquota cheia.
- Comércio com os EUA: desde 22 de julho de 2026, vigora uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, resultado de uma investigação americana com base na Seção 301 que incluiu práticas de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, como o Pix. Somada a outra sobretaxa, a alíquota sobre alguns produtos chega a 37,5%. As negociações foram retomadas sem avanço concreto, segundo as reportagens mais recentes que encontrei.
Qualquer uma dessas regras pode mudar com nova lei, mas mudar exige o Congresso, e o Congresso eleito em 2026 é o mesmo nos dois cenários.
Os dois cenários, com os mesmos critérios
A tabela abaixo usa as propostas registradas ou divulgadas pelas campanhas. Proposta não é política implementada: depende de aprovação no Congresso, de orçamento e de execução.
| Critério | Cenário A: Flávio Bolsonaro (proposta) | Cenário B: Lula (proposta) |
|---|---|---|
| Regra fiscal | Nova regra, com teto rígido para gastos discricionários em todos os Poderes e metas de redução da dívida | Manutenção do arcabouço fiscal aprovado em 2023 |
| Gasto público | “Tesouraço”: corte de ao menos dez ministérios, cargos e despesas administrativas | Ampliação de investimento público e de programas de crédito (Pronampe, Acredita, Procred 360) |
| Juros | Corte de gastos apresentado como caminho para juros menores | Disciplina fiscal apresentada como espaço para “redução sustentada das taxas de juros” |
| Tributos | Revisar a reforma tributária para limitar a alíquota do IVA, rever a tributação de dividendos, zerar tributos sobre combustíveis e energia e eliminar o IOF sobre câmbio | Manter a reforma tributária e a nova tabela do IR |
| Trabalho | Menor custo sobre a folha e maior flexibilidade trabalhista, sem detalhamento | Fim da escala 6x1 e regulamentação do trabalho em plataformas digitais |
| Estado e privatizações | Retomar o Programa Nacional de Desestatização (sem Petrobras, Banco do Brasil e Caixa, segundo a campanha) | Parcerias com o setor privado em infraestrutura |
| Tecnologia e inovação | Digitalizar a economia e serviços públicos (começando por prontuários de saúde); minerais estratégicos com energia limpa para data centers | Foco em inteligência artificial, minerais críticos, transição energética e manufatura de maior valor |
| Educação | Mais cursos técnicos, economia digital e robótica no currículo, ensino superior vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia | Ampliação do ensino em tempo integral |
| Meta de crescimento | 4% ao ano | Sem meta numérica no plano |
Duas ressalvas de método. Primeiro, nenhum dos dois planos quantifica com precisão o impacto fiscal das próprias propostas; a imprensa econômica registrou isso nos dois casos (falta de estimativa de custo dos cortes de impostos no plano de Flávio, falta de agenda de corte de despesas no de Lula). Segundo, a tabela compara intenções declaradas. Em quatro anos, muita coisa muda por crise externa, por negociação no Congresso ou por decisões que nenhum dos dois planos previu.
Como política e economia chegam ao mercado de tecnologia
Antes de ler os cenários, vale entender os mecanismos. A política afeta tecnologia por poucos canais, e quase todos são indiretos.
Juros: o canal mais forte
Software é investimento: a empresa gasta hoje para colher eficiência ou receita no futuro. Quando a Selic está alta, dinheiro parado rende muito, e qualquer projeto precisa prometer mais retorno para valer a pena. O efeito prático é conhecido por quem vende tecnologia: projetos adiados, orçamentos de TI revisados, investidores mais seletivos com startups.
Os dois candidatos prometeram juros menores, por caminhos diferentes: um por choque de corte de gastos, outro pela manutenção da regra fiscal. Mas quem decide a Selic é o Copom, olhando inflação, expectativas e risco fiscal. A política fiscal influencia os juros, mas não os determina.
Custo de contratar e modelo de contratação
Para quem trabalha com tecnologia, a discussão entre CLT e PJ é central. Três decisões já tomadas pesam aqui, independentemente do vencedor: a reoneração gradual da folha (que encarece o CLT nas empresas de TI que usavam a desoneração), a retenção de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês (que afeta profissionais PJ com distribuição alta de lucros) e a reforma tributária do consumo (que muda a tributação de serviços, incluindo software).
No cenário A, as propostas de rever a tributação de dividendos e reduzir o custo da folha apontariam para aliviar parte disso, se aprovadas. No cenário B, a tendência é manter as regras, com o fim da escala 6x1 afetando principalmente operações com turnos (suporte, atendimento, operações 24x7), menos o trabalho típico de desenvolvimento.
Demanda do Estado
O governo é um grande comprador de tecnologia. Corte de ministérios e reforma administrativa (cenário A) poderiam reduzir ou reorganizar contratos, mas a digitalização de serviços também era proposta e poderia criar demanda. Ampliar serviços digitais como o gov.br (cenário B) tende a manter a demanda por fornecedores. Nos dois casos, compras públicas dependem de orçamento, e o orçamento depende da regra fiscal.
Comércio internacional
As tarifas americanas atingem bens, não diretamente a exportação de serviços de software. Mas a inclusão do Pix e do comércio digital na investigação da Seção 301 importa para fintechs e para o ambiente regulatório de pagamentos. Qual governo negociaria melhor com os EUA é, no fim, uma hipótese: afinidade política pode facilitar conversas, mas tarifas também respondem a interesses econômicos que não mudam com a eleição de outro país.
O que isso significa para você
Se você é desenvolvedor
- O que já mudou e independe da eleição: a isenção do IR até R$ 5 mil, a tributação de dividendos altos e a reoneração da folha. Se você é PJ com retirada alta, vale revisar a estrutura com um contador agora, não depois.
- O que observar: a trajetória da Selic. Ela é o melhor indicador antecedente de quando as empresas voltam a abrir vagas e projetos.
- O que não depende de nenhum governo: quem ganha em dólar trabalhando para fora continua exposto ao câmbio; quem atua no mercado interno continua exposto ao ciclo de juros.
Se você quer abrir uma empresa de tecnologia
- O custo de capital alto torna mais difícil levantar investimento e mais valiosa uma empresa que se sustenta com receita própria.
- A transição tributária vai exigir atenção em 2027, quando a CBS entra em vigor. Precificação de serviços e contratos de longo prazo precisam considerar isso.
Se você vende software e serviços B2B
- Em ciclos de juros altos, vendas que mostram economia de custo costumam andar melhor do que as que prometem crescimento futuro.
- Regulação nova gera demanda: adaptação à reforma tributária, a novas regras do sistema financeiro (como as que vieram após o caso Banco Master) e a exigências de segurança e dados.
O que este artigo não consegue dizer
Não consigo dizer qual cenário seria “melhor para a tecnologia”. Isso dependeria de premissas sobre quanto de cada plano seria aprovado, de como o Banco Central reagiria e de choques externos que ninguém conhece. Também não usei pesquisas de intenção de voto nem projeções de mercado para o próximo mandato, porque mudam rápido e não são o objeto aqui.
O que dá para dizer com segurança é mais modesto e mais útil: os canais pelos quais a política chega ao seu trabalho são poucos (juros, tributos sobre trabalho e serviços, demanda do Estado, comércio), parte importante das regras já está definida e a próxima decisão relevante do Copom está marcada para 4 de novembro de 2026. Acompanhar esses canais diz mais sobre o seu próximo ano do que qualquer discurso de campanha.
Referências
Este artigo é um estudo baseado nas fontes abaixo. Ele compara propostas e mecanismos, não recomenda voto e não avalia candidatos. Trechos marcados como opinião ou hipótese refletem a minha leitura.
- Tribunal Superior Eleitoral. Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026 (outubro de 2026).
- Congresso em Foco. Flávio e Lula vão ao segundo turno da eleição presidencial (4 de outubro de 2026).
- Tribunal Superior Eleitoral. Planos de governo dos candidatos a presidente, 2º turno.
- Exame. Eleições 2026: veja os planos para a economia de Lula e Flávio Bolsonaro (12 de outubro de 2026).
- Agência Brasil. Flávio Bolsonaro propõe enxugar Estado e endurecer ações de segurança (18 de setembro de 2026).
- InfoMoney. O que muda na economia com Flávio? Veja as propostas apresentadas pelo candidato.
- Congresso em Foco. PT registra novo plano de governo de Lula no TSE; veja a íntegra (agosto de 2026).
- Presidência da República. Emenda Constitucional nº 111/2021 (nova data de posse).
- Folha de Pernambuco. TSE rejeita recurso e mantém Bolsonaro inelegível por oito anos.
- Banco Central do Brasil. Histórico das taxas de juros (Copom).
- A Crítica. Desemprego fica em 5,3% e Brasil alcança recorde de 103,5 milhões de ocupados (setembro de 2026), com dados da PNAD Contínua do IBGE.
- Presidência da República. Lei nº 15.270/2025 (imposto de renda e dividendos).
- Presidência da República. Lei nº 14.973/2024 (reoneração gradual da folha).
- Greenberg Traurig. USTR anuncia tarifas da Seção 301 sobre o Brasil (julho de 2026).
Precisa de apoio técnico no seu projeto ou sistema?
Atuo no desenvolvimento de sistemas web sob medida, integrações de APIs e diagnóstico de performance. Atendimento direto com o desenvolvedor, sem intermediários.
Artigos Relacionados
O caso Banco Master visto por quem constrói software financeiro
Liquidações, FGC, Will Bank e novas regras: o que está documentado no caso Master, o que ainda é hipótese e as lições de engenharia para sistemas financeiros.
Saber programar não é o mesmo que resolver problemas
Código é uma ferramenta, não o resultado. Como sair da lógica de entregar tarefas, evitar a complexidade que não resolve nada e começar a pensar em impacto.

